quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Dois rios

“Diários anacrônicos da solidão”

Decidi começar 2012 com três livros da novíssima prosa brasileira, todos de autores jovens, bem conceituados, com propostas criativas e sempre dialogando com os temas da contemporaneidade “pós-moderna” – solidão, deslocamento espacial e social, diluição das fronteiras, despatrialização, fuga da realidade... O que nos leva à questão óbvia: serão as idéias tão criativas assim quando os locais visitados são tão recorrentes, perigando a onipresença?

O primeiro impulso me leva a responder que esses lugares comuns são próprios do universo de possibilidades de que a narrativa brasileira tem se servido, a partir das questões mais imediatas e palpáveis que permeiam nosso imaginário. Não há nada de errado nessas recorrências, grandes escolas literárias transitaram pela mesma constância temática sem que isso representasse, necessariamente, um mal e, ainda que não possamos falar de uma escola na prosa brasileira contemporânea, fato é que existem traços geracionais inegáveis que se impõem (de maneira mais, ou menos, consciente).

Para além desses eixos temáticos comuns, no entanto, um outro elemento, de caráter formal, parece gritar sua constância nas obras mais recentes que li: a narrativa em primeira pessoa (dando ao texto uma carga subjetiva gigantesca) somada ao uso de uma temporalidade descontínua, que, se oferece possibilidades de abusar na criatividade, apresenta alguns riscos também, como a emergência de digressões extremamente desnecessárias. Além disso, a própria narrativa perde em verossimilhança (o que, vá lá, não é necessariamente um mal, mas incomoda) quando não sabemos exatamente em que consistem os relatos: serão testemunhos organizados sob a forma de um diário?; serão pensamentos encadeados do eu lírico?; serão um desabafo? Mesmo quando a explicação é dada, muitas vezes ela não cola.

Dando nome aos bois: os livros a que estou me referindo são Diário da queda, de Michel Laub, Pornopopéia, de Reinaldo Moraes, e Dois rios, de Tatiana Salem Levy. Excetuando Moraes (sessentão a quem chamo jovem pela escrita e pelo papel de sua Pornopopéia na tal novíssima prosa brasileira), os outros dois estão na casa dos trinta anos, todos com estilos diferentes, níveis desiguais de densidade subjetiva, ideias radicalmente opostas quanto ao otimismo ou à desilusão. E, no entanto, todos partilham dos elementos destacados acima, o que me faz pensar que o formato “diários anacrônicos da solidão” vem se impondo como regra literária no Brasil. Uma pena? Bem, os livros são ótimos (friso: ótimos!), não fosse a triste impressão de se estar recorrendo aos exemplares estendidos de experiências de criação testadas na mesma oficina de prosa...

“Dois rios”

Dos três livros que li, o de Tatiana Levy não foi aquele de que gostei mais. Mas me levantou questões para pensar (no que há de bom em seu texto e também no que considero seus pontos fracos). Com eus líricos diferentes nas duas partes que o compõem, Dois rios narra a história de dois irmãos gêmeos, Joana e Antônio, a partir de seus próprios pontos de vista no tocante à relação entre eles dois e à de cada um deles, separadamente, com uma francesa misteriosa de nome Marie-Ange. Isso exposto, a escolha do título torna-se compreensível. Ok, mas há ainda a referência à vila de Dois Rios, em Ilha Grande, cenário da infância dos personagens e também o local onde a cumplicidade umbilical dos dois sofre um abalo radical, quando da notícia da morte de seu pai. Bela escolha de título. Um ponto para Tatiana.

Os cenários da história variam entre a vila insular, a orla de Copacabana (onde os personagens residiam, quando crianças, e onde Joana mora ainda com uma mãe obcecada por seus transtornos e medos) e a ilha da Córsega, na França, terra natal de Marie-Ange, na qual os dois irmãos vivem experiências profundas de autoconhecimento junto à francesa, em momentos diferentes que se ligam de maneira um pouco vacilante ao longo do texto. Marie-Ange tem um papel fundamental em suas vidas, mudando drasticamente suas rotinas e levando-os a questionar seus próprios medos, suas próprias escolhas, além de encaminhar, indiretamente, uma possível reaproximação que acontece para além das páginas do livro.

Tudo é dois: dois irmãos, dois rios, duas ilhas, duas escolhas radicalmente opostas e duas visões de mundo. Além disso, a primeira parte do livro assume uma perspectiva feminina evidente, enquanto a segunda procura enveredar pelo universo masculino através dos olhos de Antônio. Acontece que a dualidade muitas vezes não convence. As visões radicalmente opostas, quando dissecadas pela autora, não são tão opostas assim, e os motivos que levaram ao rompimento passam por uma sucessão de eventos confusos que não se sustentam ao longo das páginas. O que levou à separação dos dois? O egoísmo de Antônio, incutindo na irmã uma culpa de que ela não pôde escapar? A fraqueza de Joana em não saber superar um trauma e levar ao irmão a se sentir preso a um espaço de tristeza e obsessão, do qual não restava alternativa senão a fuga? O desenvolvimento da intimidade dos irmãos, num início de adolescência, que os constrangia, na descoberta conjunta do erotismo e na vivência de tabus? O sentimento de que essas experiências foram responsáveis pela morte de seu pai? Tudo isso, em graus diferentes, dependendo do narrador, do momento narrado e da visão de cada personagem antes, durante e depois do contato com Marie-Ange.

Nada é preciso, como nada é preciso na mente humana, que se reconstrói a cada momento. Para solucionar essa equação, Tatiana Levy recorre a uma psicologização dos personagens, na busca interior de cada um de se auto-conhecer e reviver seus traumas e medos. Acontece que esse ar psicanalítico incorre em clichês bastante incômodos, além de não resolver as contradições presentes no livro e os problemas na seqüência da história. Além disso, um romantismo quase infantil invade, por vezes, o texto de Tatiana, interrompendo algumas seqüências belas e bem escritas. Como é ruim se deparar com a pergunta “é muito diferente do amor, a morte?”, única frase de uma das sessões do livro e, no mais, sem nenhuma contribuição para a obra além de uma pieguice das mais desconfortáveis.

Mas como é bom ler outra consideração (romântica, psicologizada e belíssima!) de Antônio sobre o desastre (vivenciado no sumiço de Marie-Ange de sua vida): “o desastre, Marie-Ange, nada mais é do que o ponto de interseção entre duas esperas, a ligação e a ruptura entre elas. Primeiro, esperamos o desastre acontecer. Depois, esperamos que ele nunca tenha acontecido, que o tempo presente vá engolir o passado e fazer com que tudo seja como antes, ou que o futuro chegue logo e, com ele, o esquecimento.” Outra bola dentro, Tatiana! Aliás, como várias outras digressões sobre o tempo e as diferentes temporalidades que habitam a vida. Esse, em minha opinião, é o ponto alto do livro, o que me fez gostar de ler as pouco mais de duas centenas de páginas que o compõem.

E olha que nessas páginas muita coisa pode ir embora sem fazer falta... Quantas vezes o ritmo do livro fica arrastaaaado, preso em divagações que servem mais para encher lingüiça do que para contribuir para a trama (geralmente dotadas do exato tom romântico a que me referi acima). Além disso, as duas partes do livro, que deveriam constituir totalidades separadas, são desiguais: a segunda parece correr atrás da primeira. A narrativa de Antônio procura responder à narrativa de Joana, ainda que não haja contato direto entre as duas e que ambas se façam em primeira pessoa, o que revela um erro de cálculo da autora ou falta de fôlego.

No mais... E a Marie-Ange? O que é ela exatamente? Uma aparição fruto do subconsciente de Joana e Antônio para que suas vidas interrompessem seus fluxos “naturais” e se voltassem à reflexão de um passado nada resolvido? Um ser sobrenatural ou mítico com o dom inspirar, subitamente, novas aspirações e desejos em quem a conhece (e de sumir, sem explicações, logo depois de ter cumprido sua missão)? Quem é Marie-Ange? Em um livro muito psicologizado, nada menos explorado do que essa personagem crucial, tão pouco convincente quanto a paixão arrebatadora que a envolve aos dois irmãos, fazendo-os abandonar seus mundos – nada cômodos, diga-se de passagem – para segui-la.

Marie-Ange parece, mais do que tudo, uma personagem alegórica, e como tal tem o seu valor (algo como o grilo falante de Pinóquio, em uma versão sensual e voraz). Aliás, alegórico é todo o livro! Escusando-lhe o romantismo um tanto tolo (invadindo uma narrativa tão próxima às inquietações da contemporaneidade) e as vezes em que a autora perde as rédeas da história, Dois rios, como parábola épica, rola, e rola bem. Belo e esperançoso relato sobre vidas separadas por silêncios partilhados.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Para que o ano novo possa ser realmente novo

De todos os méritos que poderia destacar para 2011, o mais importante me parece ser o retorno da crítica cortante ao establishment e do sonho de uma vida pautada em valores diferentes. A originalidade no conteúdo é pequena – sobretudo se retornarmos à década de 60 e relermos Sartre, Marcuse, Cohn-Bendit, os anarquistas, os situacionistas, e outros tantos istas... As formas são novas – ou, ao menos, releituras bem interessantes, integrando todas as mídias disponíveis na divulgação e na própria criação das alternativas à manipulação do concretíssimo “sistema”. Mas, acima de tudo, parece-me que parte (ainda que não a maioria) da juventude está querendo mostrar para quê veio, e a sociedade em geral parece questionar os ideais, outrora intocáveis, da acumulação capitalista – nesse aspecto, a crise se revela bastante benéfica.

A todo o momento, no entanto, me vem à cabeça a frase de Raoul Vaneigem: “aquele que fala de revolução sem mudar a vida quotidiana tem na boca um cadáver” (não tenho certeza de que ele tenha dito ESSA frase, que apareceu pichada nos muros de Paris em 68, mas na Arte de Viver para a Geração Nova ele escreveu coisa bem semelhante...). De fato, só é possível almejar uma mudança no sistema se a vida individual de cada um for transformada, naquilo que tem de mais valioso: sua relação com o outro. É absolutamente necessário enxergar o outro como parte de um mesmo organismo vivo, ao qual estamos todos integrados. É absolutamente necessário mudar a relação que temos com esse outro, pautando-a mais no amor (não o amor lugar-comum dos filmes românticos, mas o sentimento profundo de reconhecimento e respeito mútuo) do que na competição diária. É absolutamente necessário, sobretudo, que a mudança do mundo comece no ambiente doméstico.

De todo modo, a reflexão sobre o mundo que nos cerca e sobre as alternativas propostas a esse mundo não deve ser deixada de lado! Às vezes, parece que a realidade em que vivemos é natural e imutável, como se essa fosse a ordem natural das coisas, que pode até ser melhorada nos seus próprios parâmetros, mas não alterada substancialmente. Acredito que a realidade em que vivemos é uma construção histórica como qualquer outra, difícil de alterar como qualquer outra, mas não imutável, não natural e muito menos boa ou legítima! E o ano de 2011 veio nos mostrar isso de maneira bem enfática. Na verdade, tudo começa com a crise que explode em 2008 e que evidencia escandalosas contradições dentro de um sistema político, econômico e social que se pretendia perfeito – e unívoco! E a crise não é somente econômica, é política (já que os sistemas representativos mundo afora não representam mais grande parte das sociedades a que se reportam), e é ambiental, uma vez que a degradação sistemática da biosfera não mostra sinais de que vai diminuir, intimamente ligada que é ao desenvolvimento capitalista que temos, nos moldes atuais.

O que o ano de 2011 fez foi trazer à cena novos atores, novos cenários e novos roteiros. E nisso temos a tal da “Primavera Árabe”, os indignados de Madri, os rioters de Londres e a série de movimentos Occupy em todo o mundo, para citar apenas alguns exemplos. Grupos como os Adbusters e o Anonymous ganham cada vez mais espaço, sobretudo nas mídias alternativas, e as críticas, ainda que (que bom!) desordenadas, se avolumam na constatação de que do jeito que estar não dá para ficar!

Aos que criticam o Occupy Wall Street (ou o Ocupa Rio e o Acampa Sampa, como versões brasileiras, por exemplo), afirmando que eles não apresentaram nenhuma proposta clara nas críticas que fizeram, acredito que a resposta mais coerente seja a de que as velhas respostas não dão mais conta das novas realidades. Novas respostas virão, aguardem, mas a sua construção deve ser pensada em conjunto. Os Occupies são, em grande medida, um fim em si mesmos: a re-significação dos espaços públicos como espaços de discussão e denúncia não é argumento suficientemente plausível? É a partir daí que devem vir as novas respostas, a partir do diálogo com o outro... Se vai dar certo? Não sei... As ocupações em todo o mundo (as que resistiram) já demonstram sinais de exaustão e cansaço, a Primavera Árabe não garantiu a instalação de democracias plenas (e, de todo modo, quem afirmaria que a sua instalação resolveria o problema?), a juventude mundial parece estar se preparando para as férias... Mas, de todo modo, os ecos do que aconteceu durante esse ano permanecerão. Temos de saber lidar com esse legado e saber tirar dele o maior proveito possível.

Mas, para além da crítica à sociedade e das ações coletivas (sejam de sabotagem, sejam de desobediência civil ou de resistência pacífica), é necessário que pensemos outros aspectos de nossas vidas. É necessário que nossas idéias sejam coerentes com nossos gestos. É necessário, sobretudo, que superemos antigos preconceitos e pensemos na vida em sociedade e, mais do que isso, na vida em um organismo integrado como uma realidade à qual não podemos escapar e que, por isso mesmo, devemos zelar para que esse organismo sobreviva em harmonia. E, se somos parte integrante e fundamental desse organismo, zelar por ele é também zelar pela nossa vida individual, pela nossa saúde física, mental e emocional. Pela liberdade de se desfrutar de prazeres diariamente (sem abrir mão deles em nome de um quotidiano corrido ou de uma vida agitada, mesmo em nome de um ideal).

Viver os prazeres da vida, ter momentos de tranqüilidade e paz são direitos fundamentais do ser humano. Não somente os prazeres instantâneos que vêm com a novela das oito, com as atualizações do facebook ou com o pornotube, pensemos grande! Saiamos da frente do computador e vivamos a “vida real” em seus mínimos detalhes, em todas as suas possibilidades. É claro que em um mundo em que milhares de veículos de comunicação divulgam tudo ao mesmo tempo, é difícil escapar à lógica “informacional viciosa”. Acho, inclusive, que pretender escapar a ela é um engano: isolar-se, viver como um eremita no mundo em que vivemos é como andar com uma venda. É necessário estar informado, pelo máximo de fontes possível, para que possamos construir nossa própria opinião. Mas não podemos deixar que essa dependência nos domine. A vida real, em todas as suas possibilidades, nos espera! Descobrir como administrar o excesso (de trabalho, de informações, de estímulos) e como encontrar um tempo diário para estar conosco, para experimentar, talvez seja o grande desafio. Não tenho a resposta para isso, mas precisamos procurá-la!

Marcuse disse, certa vez, que “num mundo feio não pode existir liberdade”. Concordo completamente! Cabe a nós a dupla tarefa de enxergar beleza onde muitos não a vêem e de construí-la, quotidianamente, de ter a criação da beleza como um ideal, talvez o maior dos ideais. Espalhar beleza pelo mundo, provocar o espanto com os gestos mais simples, intervir no ambiente positivamente, criando, provocando... Ter essa ação direta no mundo como meta principal, e colocar-se como agente! Não podemos abdicar de nosso papel de agentes no mundo, não podemos aceitar a passividade como condição. Ajamos na direção da construção da beleza, que só pode existir com base no amor e nos sentimentos de reconhecimento e identificação com o outro.

Ajamos, também, com consciência da nossa total liberdade com o nosso próprio corpo, e do nosso direito inalienável de desfrutá-lo, de sentir prazer com ele da forma que acharmos melhor – desde que sem causar sofrimento ao outro –, sem moralismos ou códigos de conduta instituídos a priori por uma sociedade que não considera o prazer como princípio fundamental. Vivemos em um mundo em que trabalhar compulsivamente visando o acúmulo de bens é considerado atributo de caráter, enquanto o prazer é relegado às escassas horas de lazer a que temos direito (muitas vezes vividas com culpa por quem tem que produzir cada vez mais para alimentar o círculo vicioso do sistema). Invertamos a lógica: coloquemos o trabalho a serviço do prazer!

Busquemos, diariamente, a força para manter nossa vontade firme e coerente com nossas idéias. Que consigamos superar a apatia e a preguiça, agindo no dia-a-dia de maneira lúcida. Que nossos gestos sejam frutos de uma escolha consciente, não da inércia. Mas que reconheçamos também nosso direito de errar, e que possamos nos perdoar e recomeçar sempre, a cada dia, afinal não podemos nos cobrar uma perfeição que – que bom! – nós não temos. E, ainda assim, é fundamental que assumamos inteiramente a responsabilidade pelos nossos atos e idéias, ainda que eles possam, e devam, mudar.

Superemos as idéia de caridade e de altruísmo, que pressupõem uma separação fundamental entre os indivíduos, e incorporemos o valor da absoluta necessidade de uma vida conjunta. Somente assim poderemos olhar para o ano de 2011 e reivindicá-lo integralmente, em suas conquistas e em seus excessos, no que há nele de belo e de feio, mas sem termos nas bocas um cadáver, pois estaremos vivendo no nosso quotidiano o que sonhamos para o mundo. Para que 2011 não termine em 2011, mas também para que o ano novo possa ser realmente novo.


segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

GoTan ProJect

É extremamente necessário dar o play no vídeo antes de começar a ler.




Gotas granuladas como cogumelos
Gushing glass over gloves
Gastam grandes golfadas de glória
Gargantas grunhem: “gol!”




Há tango tatuado no torso tição
Torcem torrentes de tinta-treva
Por todo o tosco tronco
Que treme em “T”






Com pincel e poeira, pesco passos
Pingados no palco pelo pé suspenso
Sob o peito parco, um perfil pintado
(Preto no preto)




Anjos ginecológicos de Júpiter
Jorram, pelos gestos, jatos de giz
E jovens jurados por gíria mágica
Fingem ginga e jogo

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Constatação

Desde que Eva mordeu a maçã
(em gesto de grande heroísmo)

Teve gente maluca tacando fogo nas ruas
Teve gente mais maluca tacando fogo nas mentes

Teve gente safada tacando fogo nas partes
E ardendo gozando queimando por dentro

Ontem passei três horas pensando em sair de casa
Decidi por não sair, chovia e eu tinha sono

(F5 no screen... 7 atualizações no feed...)

Meu Deus, anos 2.000, o que foi feito da minha juventude?

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Os ferros d’Asbac

Imagem adaptada de:http://blog.iso50.com/wp-content/uploads/2007/11/iso50-vuela-thumb.jpg

Nos ferros d’Asbac correm vasos de aço
Onde toda circulação é desgaste
Da mesma repetição

Articulações em ângulos exatos
Deslizam os corpos de lá pra cá
E tornam ao repouso inicial, inúteis

A borracha crua reveste quase tudo
– E uns cantos e quinas expostos, sorrateiros
São ossos de concreto a manchar a pele preta

Na carne correm vasos de um sangue fervente
Osso, pele e nervos resistem ao trabalho
Músculos deformam-se conformados

O mundo inteiro aplaude a epopéia dos bravos
Buscando o trágico desejo
De serem exatos e inúteis, como a máquina

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Café Damasco

Sentado num café, em Curitiba, tomando minha xícara e fumando meu cigarro de maneira fingidamente despreocupada – ocultando o gênio angustioso que descasca as fendas do meu coração – leio o jovem Werther e me vêm à cabeça o desejo de escrever palavras vulgares como “angustioso” e um recordar sobre meus dizeres à namorada, no dia anterior: “viu essa pedreira, esse lago, essas árvores? Me incomoda o fato de nada disso me emocionar. O mundo não me encanta, não me embriaga, não me toca”. Pensando nisso, reitero minha convicção de que, a despeito de minha fé (que há, ainda que bruta), de meu desejo, da magia que vejo sair pelos poros do mundo – e que se dissipa pelas minhas mãos e nuca, se perde no emaranhado de meus vasos, antes de tocar meu coração –, a despeito de tudo isso, nunca virarei no Oxalá (êpa babá!).

O jovem Werther se recorda, com nostalgia, do tempo “em que espíritos benfazejos pairavam ao redor de fontes e nascentes”. Mas, no meu mundo de hoje, não há espaço para esse tipo de encanto. No meu tempo, a cidade sagrada se encontra, para sempre, esquecida por detrás das névoas. Os deuses de Merlin abandonaram a minha Britânia, e meu Rio de Janeiro – como Curitiba – não encena mais a figura de Deus caminhando sobre a face das águas. O cigarro Gauloises que fumo, como já escrevi há tanto tempo, é só um cigarro (sem êxtase, sem transcendência, sem edificação, sem história; com nicotina).

Sinto-me morno e, do romantismo, só me sobra a angústia – que cai sobre o meu peito como tabaco fumado às pressas, nas primeiras horas da manhã. À cabeça vem a música do compositor de Barcelona, e ele diz que no pequeno encontrou a força de seu mundo. Rio um riso condescendente e amargo. Amar o pequeno é destino para os que ainda conseguem viver a magia do mundo. O pequeno não lhes é morno, é total. Os ambiciosos que, como eu, almejam batalhas épicas e futuros grandiosos, não querem outra coisa que reviver o mundo encantado de seus ancestrais, oculto por detrás do véu de Maya. E quando se sentam num café, pretensamente despreocupados, fumando seu cigarro, tomando sua xícara, e planejando conquistar o mundo no dia seguinte, invejam profundamente a moça da banca de flores da esquina, para quem toda a manhã é o mesmo “bom dia”.

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Na mesa ao lado, executivos festejam a queda do dólar.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Cigarros, Nova York e galãs franceses feiosos

Foi com perplexidade, não com surpresa, que eu vi o Jornal Nacional anunciar, outro dia, que o estado de Nova York promulgou uma lei que proíbe o cigarro até mesmo nas praças e em várias das ruas da cidade! Aos que duvidam, é só acessar http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2011/02/nova-lei-em-nova-york-proibe-fumo-nas-ruas-da-cidade.html e conferir.

A lei só faz confirmar uma tendência que já se anuncia há um bom tempo: os fumantes estão se tornando párias sociais, vilões da sociedade, efetivamente marginais! Mas afinal, se podemos entupir nossas artérias com junk food, se podemos nos viciar cada vez mais em pílulas e cápsulas que prometem o paraíso, se podemos respirar o ar poluído e nos estressar no ritmo de vida alucinante das grandes metrópoles, e se ninguém questiona isso, porque o cigarro tornou-se o anti-herói do mundo moderno?

A lei promulgada em Nova York me parece ainda mais gritante pela tradição contra-cultural que a cidade inegavelmente assumiu, desde antes da década de 60. Berço dos hippies, lar dos beatniks, agora tobacco-free! Parece que a capital do planeta trocou o cigarro pelo “healthy way of life” (e, paradoxalmente, a “paz e amor” pelo stress...).

Não estou escrevendo para dizer que acho a lei um absurdo (embora eu ache); nem para defender o cigarro (que, apesar de fumante, eu não defendo de jeito nenhum). Estou escrevendo para desabafar: Nova York sem cigarro? Acho meio incompleto. Mesmo. Parece que algo está fora da ordem.

Vendo essa matéria, me lembrei de um conto que escrevi, há um tempo. Sem mais delongas tabagísticas, vamos a ele.

Cigarros, Nova York e galãs franceses feiosos

Andando na orla de Botafogo – contra o vento frio de um outono invernal, de todo atípico no Rio de Janeiro –, Rômulo procurava desesperadamente um isqueiro para acender o cigarro de filtro amarelo que esteve esperando, pacientemente, no bolso externo de sua maleta, por oito meses já completos. “Ok”, pensou, “estou me rendendo; onde eu acho algum fumante nessa cidade?”.

O ato, aparentemente de covardia (imagem pior à do fumante convicto, só aquela do ex-fumante que retorna ao vício!), escondia uma série de inquietações que iam muito além do dano biológico inegável que a fumaça do tabaco voltaria a trazer ao seu pulmão, boca e tantas outras partes do corpo. Procurando um fumante solidário pela orla da enseada, Rômulo se lembrava do sentimento de realização que experimentou no primeiro mês que passou sem a companhia de seu amigo longilíneo. E se, no segundo mês, seus amigos ainda desconfiavam de sua convicção, depois de três meses concluídos sem um único cigarro, fizeram-lhe uma festa na repartição, como comemoração ao seu feito. Ainda assim, passados oito meses, sua determinação em acender o cigarro era inabalável. Era um momento decisivo do qual não poderia mais fugir.

Sua vida vinha caminhando na mais perfeita ordem: esposa feliz, trabalho indo de vento em popa, filhos orgulhosos do pai de quem não mais precisavam ocultar a filiação na frente dos amigos (por vergonha de seus hábitos tabagísticos que, cada vez mais consensualmente, eram considerados vexatórios e próprios de marginais). Tudo corria muito bem até que, numa fatídica segunda-feira, Rômulo decidiu se estender, depois do expediente, a uma seção retrô de cinema francês, num desses espaços culturais alternativos que inundam o Centro do Rio. O motivo passava longe do filme em si: queria sair com Liza, estagiária da repartição – inteligente, apaixonada por Nouvelle Vague, seios fartos, louca por Godard, rosto angelical e, sobretudo, solteira.

Rômulo não sabia qual filme seria exibido, nem lhe interessava a informação. Entretanto, logo após o apagar das luzes, depois de letras esbranquiçadas anunciarem um “Acossado” um tanto tremido, um susto lhe fez pular da cadeira, de sobressalto. A imagem de um galã feioso da década de 60, de chapéu caído sobre os olhos e cigarro pendendo da boca, lhe fez voltar aos dezenove anos, nos seus tempos de cinemateca. Aquela cena, esquecida em sua memória, lhe voltou à mente de uma só vez, e Rômulo se lembrou do dia em que se encontrara, pela primeira vez, com aquele companheiro cancerígeno que se tornaria inseparável durante tantos anos.

Lembrou-se de que tragar a fumaça de seu Marlboro, na década de 60, era muito mais do que intoxicar o pulmão e tornar-se um pária social: era um hábito dos mais valorizados no seu círculo de amizades, um charme do qual nenhum rapaz que se pretendesse conquistador poderia prescindir. Mais do que isso, fumar era ser gente, entrar em sintonia com o mundo à sua volta – o cigarro servia de ponte, elo do fumante com o outro, com a rua, com a vida mesma. Que se danassem as complicações do hábito! Rômulo se lembrou do que o cigarro representava antes de ser perseguido como o vilão do mundo moderno, lembrou-se de quem ele era aos dezenove anos e pensou em quem era agora, já sessentão.

Lembrou-se de que seu maior sonho de juventude era conhecer a Manhattan de Woody Allen, capital do planeta, centro do Universo. Lembrou-se de que teria todas as mulheres dos seus sonhos em suas mãos (com dedos um tanto amarelados de nicotina) e de que ainda mudaria o mundo à la 1968, all you need is love! Mas tudo começaria em Manhattan, a Nova York de Cat Stevens, a cidade que nunca dorme – como ele nunca dormia aos dezenove anos.

O susto que Roômulo levou ao se ver na primeira cena do filme, cinqüenta e tantos anos atrás, o fez sair um tanto trôpego do cinema, abandonando Liza ao galã feioso francês que, provavelmente (agora ele tinha certeza), tinha muito mais a oferecer a ela do que ele. Andando a esmo pelas ruas, pensava em quem tinha se tornado, tantos anos mais tarde. Fez um balanço e o saldo era irremediavelmente negativo. Nunca fora a Nova York, meu Deus!, quem diria! Já levara os filhos à Disney, passara a lua de mel em Buenos Aires e, alguns anos depois, vira de perto os famosos canais de Veneza, mas a sua Nova York ele nunca conhecera.

Decidido a largar tudo – esposa, filhos, Liza, repartição –, Rômulo pegou o primeiro ônibus que viu pela frente, com destino à sua Manhattan, com quem já estava com dívida tão grande. Sabendo que o veículo não conseguiria transpor a distância dos anos que o separavam de seu sonho nova-iorquino, resignou-se a saltar na orla, buscando entender por que trocara Manhattan por aquela repartição, que o máximo que tinha a lhe oferecer era Liza. Subitamente sacou seu cigarro adormecido da maleta e o pressionou contra os lábios, mecanicamente. Parou de supetão.

Olhando para o ex-amigo, tentava lembrar-se do porquê de ter parado de fumar. Saúde, evidentemente. Pressão da família e dos amigos. Desejo sincero de não morrer de câncer, dali a alguns anos. Mas vendo o galã feioso do filme francês, de cigarrinho em riste, pensou se valia a pena a vida esterilizada que vinha levando havia já oito meses. A visão rápida de seu rosto galante de proporções mal dispostas o transportara de volta aos dezenove anos, e agora tudo o que importava era ir a Nova York. Mas a mera possibilidade de ir a Nova York sem um cigarro lhe apavora: não seria a mesma Nova York, não justificaria tantos anos de espera! Sem o seu Marlboro, definitivamente, mudar o mundo, all you need is love!, não seria possível.

E, no entanto, não havia um mísero fumante na orla de Botafogo, naquele frio de rachar. As bancas de jornal, fechadas, tampouco poderiam ajudá-lo. Nenhum isqueiro. Nenhum fósforo. Nada. Parecia que o mundo mesmo conspirava contra a sua missão, negando-lhe a rendição ao seu vício antigo. Mas Rômulo não poderia desistir. E não desistiu. Aceitou o fardo de acabar com o seu pulmão com a resignação de um Cristo que aceita o seu destino em nome de um bem maior. E saiu andando, pela Times Square, em plena Zona Sul do Rio de Janeiro, em busca do isqueiro que o tornaria o herói covarde que ele estava destinado a ser desde os dezenove anos.